sexta-feira, novembro 07, 2003

Um dia explicarei - explicar-me-ei - o motivo de conhecer mal a obra de Sophia de Mello Breyner.

Mas hoje, destino inteiro do dia dos seus anos, este poema.

Este é o tempo

Este é o tempo
Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam.


Sophia de Mello Breyner
in Mar Novo (1958)

Aqui.

quinta-feira, novembro 06, 2003

No Mar Salgado, FNV fala sobre a desgraça que é a sinistralidade rodoviária em Portugal.
Defendo, sem hesitações, o agravamento imediato e substancial das punições, até às várias dezenas de milhares de euros, consoante os rendimentos de quem prevarica. Creio que a notícia de uma multa de 20 ou 30, 50 mil euros paga pelo Sr. X evitaria de imediato muitos acidentes. Assim fez a Finlândia - e os países nórdicos em geral - com notável sucesso. Lembro-me ainda de ler no jornal que um dos administradores da Nokia pagou 15 000 contos - sic - de multa por uma infracção cometida de bicicleta...
A Finlândia não tem analfabetos nem ileteracia.
Aqui, com analfabetos e gente que chega às faculdades incapaz de compreender o que lê, tenta-se a educação. Tente-se, também. Mas puna-se.
O resto é gastar cera com ruins defuntos.



O Almocreve das Petas, umas das minhas mais diárias leituras, lembra que fez ontem anos que morreu Raul Brandão, uma das minhas descobertas tardias. Lembro-me de, em férias, comprar o Gomes Freire. Matilde de Melo, que, separada de seu marido, acompanha o General ao serviço do exército francês (?, mas tenho preguiça de ir tentar escobrir o livro...), pareceu-me digna de mais notícia.
Noutro registo, o episódio do coleccionador que teme pelos jarrões quando seu caixão descer as escadas e recomenda cuidado tem-me servido para aferir das verdadeiras vocações.
Um dia, contava este e outros episódios das "Memórias" e recomendaram-me muito cuidado no Raúl Brandão historiador. Já sabia: refere factos de que tive, quando em pequeno me contavam coisas velhas, versões muito diferentes e outros que, vistos à luz de um conhecimento mais pormenorizado ganham outros contornos - não averigua a idade do Marquês de Fronteira, o das memórias, que menciona como um dos subscritores da "manifestação" feita a Napoleão para pedir novo rei - e tinha 7 anos à data.
E Matilde de Melo?

quarta-feira, novembro 05, 2003

Ó LACRIMOSA



I
Ó lacrimosa, que, céu reprimido,
pesas sobre a paisagem da dor.
E quando choras, queda mansa de chuva oblíqua te sopra no areal do coração.

Ó carregada de lágrimas. Balança de todo o pranto! Que te não sentiste céu porque eras clara,
e tens de ser céu por amor das nuvens.

Quão nítido e quão próximo o teu país de dor se faz sob a severa unidade do céu! Como uma face devagar desperta no seu jazer,
que pensa horizontal ante a cósmica fundura

II

Nada mais que um hausto é o vácuo, e aquela verde plenitude das belas
árvores: um hausto!
Nós, que o hálito inda toca,
que ainda hoje toca, contamos
este vagaroso respirar da Terra
de que somos a pressa

III

Mas os invernos! Oh este secreto
recolhimento da Terra. Quando em volta dos mortos na pura recaída se reúne
a ousadia das seivas,
ousadia de futuras primaveras.
Quando a invenção acontece
sob a rigidez; quando o verde gasto
dos grandes verões
de novo se faz ideia nova
e espelho de pressentimento;
quando a cor das flores
esquece aquele demorar dos nossos olhos.

Rainer Maria Rilke
[Paris, Maio ou Junho de 1925.]

Trad. Prof. Paulo Quintela



segunda-feira, novembro 03, 2003

Sacré-Coeur

Atente-se no capítulo V: Jacinto vexado, por alguns "desastres humilhadores" decide vencer as "resistências finais da Matéria e da Força por novas e mais poderosas acumulações de Mecanismos", uma terapêutica homeopática condenada ao fracasso

Os esforços jacintianos provocam em Zé Fernandes o pesadelo que culmina com a visão do Ancião da Eternidade que sobre todo o conhecimento lê Voltaire, o céptico, e sorria, talvez, da nova crença racionalista, apolínea e da ausência de um cepticismo.

E após o pesadelo, a paixão por essa estranha Mme. Colombe, com os seus cabelos imensos, de uma dureza e espessura de juba brava, tal como, na Grécia, as bacantes cobertas de peles de animais, conhecida a afinidade de Dyonisos pelos animais selvagens - tigres em particular ( Mme. Colombe: ironia no nome ou uma ligação que me escapa. Há vários episódios que ligam Dyonisos a serpentes e pombas, bichos de afinidades eróticas conhecidas. Ou simplesmente, a duplicidade do citadino, do domado).

Passada a "sublime sordidez", Zé Fernandes purifica-se através de um episódio de embriaguez em que, muito visceralmente vomita Madame Colombe e se cura do acesso maníaco.
A tempo de salvar Jacinto, que morre dos tédios apolíneos: "Anulado, bocejava com descorçoada moleza. E nada mais instrutivo e doloroso que este supremo homem do séc. XIX, no meio de todos os aparelhos reforçados dos seus órgãos, e de todos os fios que disciplinavam ao seu serviço as Forças Universais, e dos seus trinta mil volumes repletos do saber dos séculos – estacando, com as mãos derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão mole de um bocejo, o embaraço de viver."

Zé Fernandes propõe, então, uma visita ao Sacré-Coeur.
Visita que quer fazer no interesse da sua (dele, Zé Fernandes) alma. O que é estranho, já que, lá chegado, não gosta da basílica, que não o interessa.
Só recentemente soube que o culto do sacré-coeur é um culto com origem no culto dionisíaco do coração, do coração que palpita (Marcel Détienne, “Dyonisos à ciel ouvert”). O bem da sua alma será restituir Jacinto à dele. E não é o Sacré-Coeur que salva, mas o caminho até lá.
Acompanhemo-los.
“E por fim logo que começámos a penetrar, para além de S. Vicente de Paula, em bairros estreitos e íngremes, de uma quietação de província, com muros velhos fechando quintalejos rústicos, mulheres despenteadas cosendo à soleira das portas, carriolas desatreladas descansando diante das tascas , galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando em canos - o meu fastidioso camarada sorriu àquela liberdade e singeleza das coisas. (....) E Jacinto murmurou, com agrado - É curioso.
Exclamação nova em Jacinto.
O que de facto, Zé Fernandes parece ter oferecido a Jacinto naquele caminho é uma nova "categoria epistemológica". Não é o campo que Jacinto encontra, o campo detestado e já conhecido enquanto categoria do conhecimento citadino ("P’ra o campo? O quê? P’ra o campo?!"), mas algo de novo, um "tertius genus" que une e integra o citadino e o "campestre". É esse "novo" que suscita a curiosidade jacíntica, o primeiro elemento a obrigar o príncipe da Grã- Ventura a marcar uma distância em relação ao que o cerca, em recriar a distância crítica em que Warburg veria anos mais tarde o acto civilizacional fundador.
E preparado Jacinto por este primeiro estremeção, criada essa distância Zé Fernandes pode fazer o seu excurso sobre a cidade, do alto do Sacré-Coeur um eloquente convite à liberdade e que, aliás, desmente soberanamente as singelezas de pobre homem das serras. Mas para quê disfarçar agora?
É no regresso do Sacré-Coeur que Jacinto desde há muito sente sede e que, encontrado um velho amigo, lhe apresenta Zé Fernandes com o seu sobrenome francês e "citadino": Fernandes Lorena.

Depois dessa jornada Jacinto é, pela segunda vez, um póstumo.

domingo, novembro 02, 2003

O "who is who" na Cidade e as Serras.

Jacinto mais do que filho póstumo de portugueses emigrados, é o filho da boa ventura, que o fez nascer nos Campos Elíseos, em Paris, no coração da cidade e da civilização - onde se move, príncipe, limpo dos males da hereditariedade, e isento dos males e pequenas dores que afligem os humanos "desde o berço, onde avó espalhava funcho e âmbar para afugentar a Sorte-Ruim, Jacinto medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica d’um pinheiro das dunas. Não teve sarampo, não teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim, entraram por ele tão facilmente como o sol por uma vidraça. (...) Na idade em que se lê Balzac e Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade (...)
Mais: "Sem coração bastante forte para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o libertava, do amor só experimentou o mel". E "era servido pelas coisas com docilidade e carinho; - e não me recordo que jamais lhe estalásse um botão da camisa, ou que um papel maliciosamente se escondesse a seus olhos, ou que ante a sua vivacidade e pressa uma gaveta pérfida emperrasse.
Isto é, mais do que bafejado pela boa sorte, Jacinto é, enquanto personagem (quase?) inverosímil, a corporização de um programa civilizacional apolíneo.

Ao invés, Zé Fernandes, é o homem que vem das serras - e este plural é... plural e tão mais significativo quanto na chegada a Tormes, no cântico panteísta que entoa, Fernandes não refere "serras" mas serra: "Aqui vimos, aqui vimos serra bendita".
Mas homem das serras, e tão das serras quanto se quer fazer crer?
Quando se apresenta, afirma ser sobrinho de Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande. Mas, depois, sempre omite o nome Lorena. Por uma única vez, mas num momento particularmente significativo, quando descem do Sacré-Coeur, Jacinto apresenta-o como "Zé Lorena".
Quem são estes Lorenas, os Lorenas que Zé Fernandes era?
Nada mais do que os príncipes de Lorraine, senhores soberanos, por vários séculos, de uma dessas pequenas nacionalidades medievais que o fim do feudalismo liquidou em benefício dos nascentes estados modernos. Reformados da soberania, os Lorena eram, no entanto, reinantes na Áustria (Habsburg-Lorraine) e em França senhores de várias grandes Casa do ancién régime, a que pertencia, entre outras, a dos Duques de Guise - que tinha dado à Escócia e depois, à França uma rainha, Maria Stuart e, mais tarde, ainda outra: Maria Antonieta.
Ou seja, Zé Fernandes, em Paris era um peculiar "serrano", parente da alta aristocracia francesa (parente, entre outras, da Condessa de Grefullhe que contribuiria para a Duquesa de Guermantes de Proust)
E Eça sabia bem isso: a sua Mulher era, ela própria uma Lorena, desses de que falo... Os Lorenas portugueses nascem de uma aliança de uma filha de Luís de Lorraine, príncipe de Lambesc com o 3º Duque de Cadaval. Descendente desse casamento, um bisavô de Dona Emília de Castro conservava o nome.

Isto tudo para dizer que se Zé Fernandes não mente, oculta. E que, mais do que o portuguesíssimo Jacinto, está em casa, em Paris, na cidade-civilização. Zé Fernandes viaja incógnito, "disfarçado" de português das serras. E, no 202 é o oculto anfitrião do seu anfitrião.

Ora, perito em disfarces e embustes, ocultar-se é um dos atributos de Dionísio.

Que a uma das oposições sobre a qual se constrói a Cidade e as Serras seja a apolínea-dionísiaca é algo que não escapa a Frank de Sousa e não escapou a outros. Talvez tenha passado despercebido, por desconhecimento das geneologias - que Eça conhecia - esse sobrenome da mais alta aristocracia francesa entre os do narrador que, impressionado, murmura "Caramba!" ante os requintes do filho de Cintinho e Teresa, o serrano Jacinto de coração fraco, não era obra do acaso.

Li agora no Causidicus que o IPPAR não se retracta no episódio Harry Potter.

O Impensavel tinha-se perguntado, no passado Domingo, dia 26, se seria alguém demitido. De facto, a pergunta era mera retórica: para que alguém fosse demitido - ou por qualquer modo responsabilizado - seria necessário que o que se passou fosse percebido como indigno e afrontoso, mesmo que tardiamente, por quem tem a responsabilidade do Panteão Nacional ou neles manda.
O que, cá por coisas, me pareceu tarefa difícil.

E hoje, para os católicos, dia de Fiéis Defuntos - e foram católicos quase todos os que lá estão - naquele cemitério haverá, talvez, os habituais espectáculos de fantoches para a garotada.
Está aqui.

sexta-feira, outubro 31, 2003

Ilustre-se o dito no blog anterior.
O narrador, Zé Fernandes, começa por falar no avô de Jacinto, mas em meia dúzia de parágrafos, aliás, quatro, "resolve" toda uma geração (mantenho a ortografia, a da edição que existia e de que gosto mais do que a actual):

" E sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sêdas se enconchou, descançando de tantas agitações, n'uma vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros d'emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, d'uma lampreia d' escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os amigos pensavam que a snr.a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que tão bem lhe comprehendiam os escrupulos e a asthma.
- Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarára ella), ainda que me faz falta a boa agua d' Alcolena . .. O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.
O 'Cinthinho crescêra. Era um moço mais esguio e livido que um cirio, de longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse e de suffocações, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202 ; e os criados na copa sempre lhe chamavam a Sombra. N'essa sua mudez e indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno; depois, mais tarde, com a melada flôr dos seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola, educada n'um convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava; dourava, concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. No outomno de 1851, quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o 'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o golfo Juan ou para as tepidas areias d' Arcachon.
'Cinthinho, porém, no seu afêrro de sombra, não se quiz arredar da Therezinha Velho, de quem se tornára, atravez de Paris, a muda, tardonha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
Tres meses e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.”

A morte do pai de Jachinto e antes os seus amores, o seu casamento e a apresentação da mãe de Jacintho - de notar a estranha vocação - são apresentadas quase como meras justificações da permanência da família no 202, fecha a introdução e ainda no mesmo parágrafo apresenta-nos o tema: um "meu Jachinto" desambaraçado de progenitores, de que o narrador se irá ocupar.

A semana atarefada e a Cidade e as Serras em segundo plano...

Lamento-me - ocupação em que gasto algumas horas que, de outro modo, seriam de puro aborrecimento.

Mas o Jacinto... Melhor, a mãe dele: creio que Eça, pura e simplesmente se esqueceu dela...
O pai, o Cintinho, morre meses antes de ele nascer. Da mãe, fora o necessário para a situar na comunidade miguelista emigrada em Paris, nem uma palavra. Nem sequer morre, o termo mais indicado para descrever a sua sorte parece-me ser o utilizado na pintura novecentista para os longes do céu e do tempo: azula.
É a avó D. Angelina, não a mãe de Jacinto, a figura tutelar do 202. É a ela que cabe a decisão, motivada pelos achaques da idade, de não voltar a Portugal. Talvez aqui resida um motivo para Teresinha azular, mas no lo creo.

Seja como for e por que motivo for, Jacinto é o mais póstumo dos heróis ecianos.

(Está um temporal desfeito, capaz de fazer esvoaçar telhas... Vou para a cama. Uhm.. parece-me que Pinho Leal refere, por diversas vezes, grandes temporais em Outubro. Outras vezes, porém, é um mês calmo e pacífico. Vá-se lá saber...)

quarta-feira, outubro 29, 2003

O Anarcoconservador, um novo blog amável, dos meus lados, linkou o Impensavel. Agradece-se, cumprimenta-se, retribui-se.
Ou assim como assim, escrevia no post anterior. O certo é que a emersão até à profundidade pode ser pode ser plácida, serena. De onde o "escalar", a persistência no esforço, na dolorosidade? Pfff....
Criei uma relação de necessidade que não é verdadeira: o último parágrafo é falso.
Que Camilo gritou sempre onde lhe doía parece-me uma verdade. Mas pode ser uma verdade de método.
O caminho mesmo do dizer não é ermo, a ruína não pode ser fruída sem o incómodo de muitas respirações.
E mesmo assim sucumbe-se, e ao relato, insiste-se.
Caberia antes calar, a escrita não nos cura de estarmos aqui dentro, le plus profond c’est la peau - Valéry - e acabar-se de vez com essa desajeitada tentativa de nos palpar por fora...
Ou, assim como assim, antes dizermos onde nos dói e sem escrúpulos e sem contenção, sem tentativas de avessos, escalar os capilares.
A desoras e a propósito de Camilo.

terça-feira, outubro 28, 2003

domingo, outubro 26, 2003

Ouvi há pouco a notícia do lançamento do Harry Potter no Panteon Nacional.
É uma afronta.
O problema está em saber a quê.
Testemos: o responsável por aquele monumento é posto na rua, ou não é?





sábado, outubro 25, 2003

Há tempos lia umas memórias - poderiam chamar-se de uma menina bem comportada de proví­ncia, tão placidamente relatam quotiadanos que, para o leitor de hoje, são pura arqueologia.
Nelas descreve o serviço de jantar de "todos os dias" da sua infância, com a representação do episódio de D. Fuas Roupinho.

Também, na minha casa da praia, havia esse "serviço de todos os dias" "cavalinho" da Fábrica de Sacavém, como agora sei que se chama e, igualmente, julguei que o cavaleiro era o miraculado da Nazaré. Um dia perguntei, riram-se - amavelmente, embora - e explicaram-me que não, que reparasse, era uma estátua equestre, entre ruí­nas num jardim, como havia nos jardins e parques antigos.
Eu, que tantas vezes pedira ao cavaleiro, que também, julgava um santo - por ter sido salvo do demónio - fizesse desaparecer o restos de fí­gado, de peixe, da clara do ovo estrelado, tive um dos meus primeiros e mais acerbos desgostos de fé, os que ferem a absoluta capacidade, não de crer, mas de crer que Tudo em todas as coisas está, benfajezamente.
Sarei essa ferida, mas o tecido cicatricial, delicado e transparente, a pele nova e rósea, foi o da desilusão.

Esclareci, um dia, a Autora das memórias que não era, não era D. Fuas, mas um motivo de inspiração quase seguramente inglesa.
Ça va sans dire: herético.




quarta-feira, outubro 22, 2003

A Leitura Partilhada agendou a leitura partilhada d'A Cidade e as Serras,
Com a menção ao livro de Frank de Sousa, como ante-leitura.
Sei que há eciólogos recentes que se têm ocupado deste romance, porém, não conheço os trabalhos.
Uma pequena bibliografia passiva aqui.

Uma das obras mais fundamentais é "Língua e Estilo de Eça de Queirós" estude-se Guerra da Cal, na edição da Almedina, um dos livros mais fundamentais. Há, disponível, aqui

O autor que me fez descobrir um Eça muito para além do que conhecia através das sebentas de liceu - mesmo das boas - e principalmente o último Eça, foi João Medina, com o seu "Eça político".

Para ter uma noção "actualizada" de Eça, aconselho a biografia do Escritor por Maria Filomena Mónica - escrita já depois da publicação da correspondência trocada entre Eça e sua Mulher, Dona Emília de Castro com o que muito ganha a devolução de um Eça desentulhado, como escreveu alguém ( a própria MFM? estou com preguiça ir ver...) das visões marcadamente ideológicas dos dois últimos séculos ou mesmo de antipatias e simpatias pessoais.

Tudo isto se lê, numa primeira leitura, em três tardes e "depois de jantares".
No Gloucestershire, vi na televisão, grupos de pessoas com coletes de sinalização verde-alface vêem a cores do Outono, na floresta. Surpreendi tiques de vernissage: ares compenetrados, buscas de distância de leitura - o que tomei por isso - pequenos ajuntamentos de connaisseurs.
Ao longe, gente entre as árvores, uma instalação.

Aqui, sem cores de floresta, ventania e chuvadas e bonanças dormentes que padeço quietamente.


sábado, outubro 18, 2003

Os dias "tanto se me dá, como se me deu", os verdadeiros, são raros.
Este um desses, em estado puro.

sexta-feira, outubro 17, 2003

Esta coisa de quererem que Portugal tenha a hora do meridiano de Berlim, questão que o governo quis inventar (certamente por lhe faltarem outras em que ocupe o seu génio resolvedor) é profundamente ofensiva, é uma imperdoável falta de respeito, sem qualquer justificação.
Metam-se cunhas uns aos outros, demitam-se todos ou, ficando, decretem as suspeitas coisas habituais, mas deixem-nos em paz, não macem, não aborreçam.
O meu voto já lá vai, airoso, para os nulos/brancos. Não, não são vocemecês. São os propriamente ditos, os do desleixo, inépcia, analfabetismo e asco. Muito asco.
Passem bem.