terça-feira, outubro 07, 2003

O caminho entre a casa e a escola - mais tarde o liceu, que ficava para os mesmos lados - pela parte antiga da cidadezinha era agradável. De manhã, no Inverno, havia no passeios estreitos braseiras de latão a atear, cobertas de papel de prata. À hora do almoço havia quem, no Verão, assasse sardinhas na rua. No regresso, à tardinha, de novo algumas braseiras a espevitar, os preparativos para o jantar. E idas e vindas da mercearia, do lugar da fruta, conversas de vizinhas.
Hoje, esse caminho é um desolado deserto.
O ermamento não é a consequência inevitável do "passar do tempo", do "progresso". Tem causas precisas: a lei do arrendamento e o seu corolário, o recurso ao empréstimo bancário - mais facilmente concedido para "habitação nova" do que para restauro, o novo riquismo das concepções urbanísticas de preservação de cenários mais do que de estilos de vida, de modos de estar.
Limerick 16

There was a Young Lady of Portugal,
Whose ideas were excessively nautical:
She climbed up a tree,
To examine the sea,
But declared she would never leave Portugal.

"The book of nonsense", Edward Lear
Há textos que vivem da exumação de afectos, de sentimentos. Nada mais desagradável do que esse querer mostar o que já foi sem que haja a suspeita de qualquer crime, apenas por mera precaução, por um zelo excessivo, inútil.

segunda-feira, outubro 06, 2003

Amanhã era o dia em que, quando andava na escola e nos primeiros anos de liceu, as aulas começavam.
Lembro-me do meu primeiro dia de escola a sério, sem plasticinas nem guaches, sem o "Livro da Capa Verde" que havia sucedido à "Cartilha Maternal".
Ontem, via o documentário sobre Brel na "arte" , as datas das entrevistas embaraçavam-se nessas outras desses começos, impensada banda sonora dos sentimentais tempos silenciosos que lembravam.
Impensavel e o serviço público


Pronto a ler:

Projecto de constituição europeia, aqui

Relatório da presidência da convenção aqui.

Na página 21 do documento pdf do relatório da presidência note-se o Anexo III - relatório alternativo.
Impensavel agradece

O Almocreve das Petas adicionou o impensavel à sua lista de blogues.
Aproveita-se para recomendar o post sobre o artigo de António Guerreiro.
e toda a solidariedade com as desventuras no pequeno slam.

domingo, outubro 05, 2003

"O espanto de Gonçalo era como o Republicanismo alastrara em Portugal - até na velhota, na devota Oliveira...
- Quando eu andava em preparatórios existiam simplesmente dois republicanos em Oliveira, o velho Salema, lente de Retórica, e eu. Agora há partido, há comité, há dois jornais. E há mesmo o Barão das Marges com a Voz Pública na mão, debaixo da Arcada..."
André Cavaleiro acrescentava que "Portugal, nas suas massas profundas permanecia monárquico, de raiz. Apenas ao de cima, na burguesia e nas escolas flutuava uma escuma ligeira, e bastante suja que se limpava facilmente com um sabre..."
A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queiroz

Veio a república, e veio o sabre. Republicano.

sábado, outubro 04, 2003

These tested Our Horizon -
Then disappeared
As Birds before achiving
A Latitude.

Our Retrospection of Them
A fixed Delight,
But our Antecipation
A Dice - a Doubt -

Puseram-nos à prova o Horizonte -
E depois desapareceram
Como pássaros antes de atingiram
A Latitude

O nosso Retrospecto
Deleite definido,
Mas posso Antecipar
Um Lance - Dúvida.

Emily Dickinson, tradução de Jorge de Sena,
este sábado.

sexta-feira, outubro 03, 2003

Este blog sobre filosofia, tranquilo e pensativo, que recusou com serenidade as regras do jogo bloguístico - sejam elas e ele os mais lícitos - é um bom sítio para se ir passear.
Chama-se - chamou-se? - (In)totalidades
O Impensavel agradece

O Forumania refere o Impensavel na sua lista.
Breve jornada a Lorbrulgrud

Entrei num café de proví­ncia. Por entre a cerração do sono divisei, num tabuleiro, entre outras formas disformes e monstras, uma descomunal rodela enviesada, coberta de creme amarelo: era o que, quando eu era pequeno, se chamava pata de veado, um bolo pequeno, que se comia na praia; duas monstruosas semiesferas unidas por um magma amarelo alaranjado e parcialmente fundido era o que eu conhecia sob o nome de bolas de Berlim; uma massa gigantesca, compromisso entre um crustáceo hostil e um folar, revelou-se um "croissant"; uns alguidares de tamanho regular com uma massa preta deduzi que fossem pastéis de nata. Na mesma prateleira, na mesma escala de grandeza e suponho que de metamorfose repousavam outros colossos de pastelaria.
Lembrei-me do perfume das rosas do Principe do Leopardo, transformado num violento odor de lupanar sob os efeitos do sol siciliano e meditei sobre o que teria produzido um efeito similar em relação aos bolos.
A meio das minhas divagações entrou uma cliente, de bata de laboratório, e disse que "ia querer um café e um bolinho".
Apercebi-me das dimensões swiftescas do meu paternalismo, despedi-me, paguei, saí.
Advogado, vice-presidente de uma grande companhia de advogados, especialista em investimentos bancários, escrevia assim:

We do not prove the existence of the poem.
It is something seen and known in lesser poems.
It is the huge, high harmony that sounds
A little and a little, suddenly,
By means of a separate sense. It is and it
Is not and, therefore, is. In the instant of speech,
The breadth of an accelerando moves,
Captives the being, widens - and was there.

Chamava-se Wallace Stevens
O poema completo aqui

quinta-feira, outubro 02, 2003

O Impensavel agradece

Ao Mata-Mouros a inclusão do Impensavel nos blogues "estimulantes".


Também o Quarta Vaga, ainda um projecto de blog, adicionou o Impensavel aos seus links.
Referendo Europeu

Queria manter o Impensavel longe das coisas do dia a dia. Impossível, porém, ignorar a questão.

O que se passa seria um escândalo se não fora previsível.
A "classe política" portuguesa nutre pelas decisões do "povo" a maior das desconfianças. Ao pessimismo paternalista do anterior regime que, em parte, aliás, adoptou e faz parte do seu "hidden curriculae" mental, veio juntar-se o actual, filiado próxima ou remotamente no marxismo, que considerava o "povo" - ou parte dele - , incapaz de se libertar, por si, dos grilhões que o subjugavam (veja-se, sobre o assunto, Sir Isaiah Berlin, "Realism in Politics" ) e de, por isso, escolher o seu destino sem o auxílio mais ou menos organizado de luminárias benfazejas.

O desconhecimento do que "realmente está em jogo", as complexidades da política europeia ou o desinteresse do "povo" (ou seja, o medo de que o "povo" decida "mal") são as desculpas que os membros da "classe política" - os que não querem o referendo e os que fingem que o querem - dão para que o novo tratado europeu não seja submetido a votos (os melhores deles pensarão, talvez, que um eleitorado "bem informado" votaria "bem", mas que com "este" - connosco - é um risco).
Uns e outros comungam, ainda, sob a capa do "realismo político" na mesma crença, na inevitabilidade, no sentido único e, por isso, afligem-se com isto de poder a vontade popular vir atrapalhar a capitulação provinciana perante as potências, perante um inelutável "estado das coisas" que eles há muito decidiram.
Para consumo interno arranjam-se desculpas e pretextos que nos entretenham. Irrelevantes, mesmo os mais bem tecidos.

Os pecados do passado, dizia alguém, projectam longas sombras.
Eu queria viver no Maine, ou em Sussex, ou no Tennessee, numa casa sóbria e velha, escrever coisas límpidas, avesso a comparações, dotado na arte da elipse, olhar quieto paisagens planas lineares e pias - senão esparsos outeiros sinópticos, algum pasto - e nelas pouca gente, a metáfora de tudo isso ágil.
Mas nasci em Lisboa, pisco de olhos, moro sei lá onde e nas elipses tão amadas não sei fazer caber o que não digo.

quarta-feira, outubro 01, 2003

Perguntavam-me "se ainda ia usar as T-shirts, se já as podia guardar". Respondi que sim com a alegria de um exilado que, regressado à pátria, se desfaz dos andrajos que usou num desterro amargo.
Carta de Camilo Castelo Branco

"Il.mo e Ex.mo Sr.

Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país durante quarenta anos de trabalho.
Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego.
Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia, que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas.
Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Ex. a Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança.
Poderá V. Ex. a salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso.
Mas poderá V. Ex. a dizer-me o que devo esperar desta irrupção sanguínea nuns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue?
Digne-se V. Ex. a perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia por um homem que não conheceu."

Li e reli esta carta, uma das últimas que escreveu.
A primeira impressão foi má: afinal, Camilo era uma glória nacional, os seus problemas de olhos há muito conhecidos e lastimados nos jornais, um bilhete cortês e simples teria bastado, sobejado, para que o médico acorresse a observar o Escritor.
Lastimei o desejo de efeito, o mau gosto, a pletora retórica, o exibicionismo da desgraça, lamentei o meu sorriso diante do que me pareceu uma falta de escrúpulos perante si mesmo e da própria dor, e eis que, aqui e de repente, reconheço onde estou, a mão que me trouxe para cá. Indigno-me, rio, comovo-me.
Os grandes escritores não têm correspondência particular

O Mar Salgado fez ontem uma amável referência ao Impensável e incluiu-o nos blogues "boa onda".
Agradeço reconhecidamente.

Ó noite que vais crescendo
Tão cheia de escuridão,
Tu és a flor mais bela
Dentro do meu coração

Do Cancioneiro e citada por Pascoes, na "Arte de Ser Português"
Foi ontem o dia em que voltava, anos a fio, da outra casa, na praia.

Um gesto que ficara então o reavia.
Do pó, do cotão, do atrito morno da ausência já inútil e estranho, pousara um livro, as mais das vezes ou, retido, esquecera de vez o que esquecia.