Este blog sobre filosofia, tranquilo e pensativo, que recusou com serenidade as regras do jogo bloguístico - sejam elas e ele os mais lícitos - é um bom sítio para se ir passear.
Chama-se - chamou-se? - (In)totalidades
sexta-feira, outubro 03, 2003
Breve jornada a Lorbrulgrud
Entrei num café de província. Por entre a cerração do sono divisei, num tabuleiro, entre outras formas disformes e monstras, uma descomunal rodela enviesada, coberta de creme amarelo: era o que, quando eu era pequeno, se chamava pata de veado, um bolo pequeno, que se comia na praia; duas monstruosas semiesferas unidas por um magma amarelo alaranjado e parcialmente fundido era o que eu conhecia sob o nome de bolas de Berlim; uma massa gigantesca, compromisso entre um crustáceo hostil e um folar, revelou-se um "croissant"; uns alguidares de tamanho regular com uma massa preta deduzi que fossem pastéis de nata. Na mesma prateleira, na mesma escala de grandeza e suponho que de metamorfose repousavam outros colossos de pastelaria.
Lembrei-me do perfume das rosas do Principe do Leopardo, transformado num violento odor de lupanar sob os efeitos do sol siciliano e meditei sobre o que teria produzido um efeito similar em relação aos bolos.
A meio das minhas divagações entrou uma cliente, de bata de laboratório, e disse que "ia querer um café e um bolinho".
Apercebi-me das dimensões swiftescas do meu paternalismo, despedi-me, paguei, saí.
Entrei num café de província. Por entre a cerração do sono divisei, num tabuleiro, entre outras formas disformes e monstras, uma descomunal rodela enviesada, coberta de creme amarelo: era o que, quando eu era pequeno, se chamava pata de veado, um bolo pequeno, que se comia na praia; duas monstruosas semiesferas unidas por um magma amarelo alaranjado e parcialmente fundido era o que eu conhecia sob o nome de bolas de Berlim; uma massa gigantesca, compromisso entre um crustáceo hostil e um folar, revelou-se um "croissant"; uns alguidares de tamanho regular com uma massa preta deduzi que fossem pastéis de nata. Na mesma prateleira, na mesma escala de grandeza e suponho que de metamorfose repousavam outros colossos de pastelaria.
Lembrei-me do perfume das rosas do Principe do Leopardo, transformado num violento odor de lupanar sob os efeitos do sol siciliano e meditei sobre o que teria produzido um efeito similar em relação aos bolos.
A meio das minhas divagações entrou uma cliente, de bata de laboratório, e disse que "ia querer um café e um bolinho".
Apercebi-me das dimensões swiftescas do meu paternalismo, despedi-me, paguei, saí.
Advogado, vice-presidente de uma grande companhia de advogados, especialista em investimentos bancários, escrevia assim:
We do not prove the existence of the poem.
It is something seen and known in lesser poems.
It is the huge, high harmony that sounds
A little and a little, suddenly,
By means of a separate sense. It is and it
Is not and, therefore, is. In the instant of speech,
The breadth of an accelerando moves,
Captives the being, widens - and was there.
Chamava-se Wallace Stevens
O poema completo aqui
We do not prove the existence of the poem.
It is something seen and known in lesser poems.
It is the huge, high harmony that sounds
A little and a little, suddenly,
By means of a separate sense. It is and it
Is not and, therefore, is. In the instant of speech,
The breadth of an accelerando moves,
Captives the being, widens - and was there.
Chamava-se Wallace Stevens
O poema completo aqui
quinta-feira, outubro 02, 2003
O Impensavel agradece
Ao Mata-Mouros a inclusão do Impensavel nos blogues "estimulantes".
Também o Quarta Vaga, ainda um projecto de blog, adicionou o Impensavel aos seus links.
Ao Mata-Mouros a inclusão do Impensavel nos blogues "estimulantes".
Também o Quarta Vaga, ainda um projecto de blog, adicionou o Impensavel aos seus links.
Referendo Europeu
Queria manter o Impensavel longe das coisas do dia a dia. Impossível, porém, ignorar a questão.
O que se passa seria um escândalo se não fora previsível.
A "classe política" portuguesa nutre pelas decisões do "povo" a maior das desconfianças. Ao pessimismo paternalista do anterior regime que, em parte, aliás, adoptou e faz parte do seu "hidden curriculae" mental, veio juntar-se o actual, filiado próxima ou remotamente no marxismo, que considerava o "povo" - ou parte dele - , incapaz de se libertar, por si, dos grilhões que o subjugavam (veja-se, sobre o assunto, Sir Isaiah Berlin, "Realism in Politics" ) e de, por isso, escolher o seu destino sem o auxílio mais ou menos organizado de luminárias benfazejas.
O desconhecimento do que "realmente está em jogo", as complexidades da política europeia ou o desinteresse do "povo" (ou seja, o medo de que o "povo" decida "mal") são as desculpas que os membros da "classe política" - os que não querem o referendo e os que fingem que o querem - dão para que o novo tratado europeu não seja submetido a votos (os melhores deles pensarão, talvez, que um eleitorado "bem informado" votaria "bem", mas que com "este" - connosco - é um risco).
Uns e outros comungam, ainda, sob a capa do "realismo político" na mesma crença, na inevitabilidade, no sentido único e, por isso, afligem-se com isto de poder a vontade popular vir atrapalhar a capitulação provinciana perante as potências, perante um inelutável "estado das coisas" que eles há muito decidiram.
Para consumo interno arranjam-se desculpas e pretextos que nos entretenham. Irrelevantes, mesmo os mais bem tecidos.
Os pecados do passado, dizia alguém, projectam longas sombras.
Queria manter o Impensavel longe das coisas do dia a dia. Impossível, porém, ignorar a questão.
O que se passa seria um escândalo se não fora previsível.
A "classe política" portuguesa nutre pelas decisões do "povo" a maior das desconfianças. Ao pessimismo paternalista do anterior regime que, em parte, aliás, adoptou e faz parte do seu "hidden curriculae" mental, veio juntar-se o actual, filiado próxima ou remotamente no marxismo, que considerava o "povo" - ou parte dele - , incapaz de se libertar, por si, dos grilhões que o subjugavam (veja-se, sobre o assunto, Sir Isaiah Berlin, "Realism in Politics" ) e de, por isso, escolher o seu destino sem o auxílio mais ou menos organizado de luminárias benfazejas.
O desconhecimento do que "realmente está em jogo", as complexidades da política europeia ou o desinteresse do "povo" (ou seja, o medo de que o "povo" decida "mal") são as desculpas que os membros da "classe política" - os que não querem o referendo e os que fingem que o querem - dão para que o novo tratado europeu não seja submetido a votos (os melhores deles pensarão, talvez, que um eleitorado "bem informado" votaria "bem", mas que com "este" - connosco - é um risco).
Uns e outros comungam, ainda, sob a capa do "realismo político" na mesma crença, na inevitabilidade, no sentido único e, por isso, afligem-se com isto de poder a vontade popular vir atrapalhar a capitulação provinciana perante as potências, perante um inelutável "estado das coisas" que eles há muito decidiram.
Para consumo interno arranjam-se desculpas e pretextos que nos entretenham. Irrelevantes, mesmo os mais bem tecidos.
Os pecados do passado, dizia alguém, projectam longas sombras.
Eu queria viver no Maine, ou em Sussex, ou no Tennessee, numa casa sóbria e velha, escrever coisas límpidas, avesso a comparações, dotado na arte da elipse, olhar quieto paisagens planas lineares e pias - senão esparsos outeiros sinópticos, algum pasto - e nelas pouca gente, a metáfora de tudo isso ágil.
Mas nasci em Lisboa, pisco de olhos, moro sei lá onde e nas elipses tão amadas não sei fazer caber o que não digo.
Mas nasci em Lisboa, pisco de olhos, moro sei lá onde e nas elipses tão amadas não sei fazer caber o que não digo.
quarta-feira, outubro 01, 2003
Carta de Camilo Castelo Branco
"Il.mo e Ex.mo Sr.
Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país durante quarenta anos de trabalho.
Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego.
Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia, que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas.
Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Ex. a Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança.
Poderá V. Ex. a salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso.
Mas poderá V. Ex. a dizer-me o que devo esperar desta irrupção sanguínea nuns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue?
Digne-se V. Ex. a perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia por um homem que não conheceu."
Li e reli esta carta, uma das últimas que escreveu.
A primeira impressão foi má: afinal, Camilo era uma glória nacional, os seus problemas de olhos há muito conhecidos e lastimados nos jornais, um bilhete cortês e simples teria bastado, sobejado, para que o médico acorresse a observar o Escritor.
Lastimei o desejo de efeito, o mau gosto, a pletora retórica, o exibicionismo da desgraça, lamentei o meu sorriso diante do que me pareceu uma falta de escrúpulos perante si mesmo e da própria dor, e eis que, aqui e de repente, reconheço onde estou, a mão que me trouxe para cá. Indigno-me, rio, comovo-me.
Os grandes escritores não têm correspondência particular
"Il.mo e Ex.mo Sr.
Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país durante quarenta anos de trabalho.
Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego.
Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia, que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas.
Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Ex. a Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança.
Poderá V. Ex. a salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso.
Mas poderá V. Ex. a dizer-me o que devo esperar desta irrupção sanguínea nuns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue?
Digne-se V. Ex. a perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia por um homem que não conheceu."
Li e reli esta carta, uma das últimas que escreveu.
A primeira impressão foi má: afinal, Camilo era uma glória nacional, os seus problemas de olhos há muito conhecidos e lastimados nos jornais, um bilhete cortês e simples teria bastado, sobejado, para que o médico acorresse a observar o Escritor.
Lastimei o desejo de efeito, o mau gosto, a pletora retórica, o exibicionismo da desgraça, lamentei o meu sorriso diante do que me pareceu uma falta de escrúpulos perante si mesmo e da própria dor, e eis que, aqui e de repente, reconheço onde estou, a mão que me trouxe para cá. Indigno-me, rio, comovo-me.
Os grandes escritores não têm correspondência particular
O Mar Salgado fez ontem uma amável referência ao Impensável e incluiu-o nos blogues "boa onda".
Agradeço reconhecidamente.
Agradeço reconhecidamente.
segunda-feira, setembro 29, 2003
A menção que o Homem a dias fez ao Impensavel provocou um inesperado afluxo de visitas.
Sinto o embaraço do desleixado que, perdido o hábito de receber e visitado sem aviso por amigos que há muito não vê, fica sem gelo e água de picos à primeira rodada.
Sinto o embaraço do desleixado que, perdido o hábito de receber e visitado sem aviso por amigos que há muito não vê, fica sem gelo e água de picos à primeira rodada.
Suetonius Tranquillus, afirma o prefaciador da minha edição da Vida dos Doze Césares, é surpreendentemente moderno.
É uma advertência necessária, para que não nos deixemos cegar pela transparência do texto, feita, em parte, de uma coloquialidade ao gosto de hoje.
Esquecer que a limpidez dos seus textos é espessa far-nos-ia incorrer no risco de lermos Suétonio como um "pastiche" dele mesmo.
É uma advertência necessária, para que não nos deixemos cegar pela transparência do texto, feita, em parte, de uma coloquialidade ao gosto de hoje.
Esquecer que a limpidez dos seus textos é espessa far-nos-ia incorrer no risco de lermos Suétonio como um "pastiche" dele mesmo.
domingo, setembro 28, 2003
"Salomon a dit avoir tout vu sous le soleil. Je pourrais citer quelqu'un qui ne mentirait point, quand il dirait avoir vu quelque chose de plus: c'est à dire, ce qu'il y a au-dessus du soleil, et ce quelqu'un est bien loin de s'en glorifier"
"Salomão disse ter tudo visto sob o sol. Eu poderia citar quem não mentiria quando dissesse ter visto algo mais: ou seja, o que há acima do sol, e esse alguém está longe de por tal se enaltecer"
Louis Claude de Saint Martin
Citado por E. Cioran
in "Essai sur la pensée reactionnaire"
"Salomão disse ter tudo visto sob o sol. Eu poderia citar quem não mentiria quando dissesse ter visto algo mais: ou seja, o que há acima do sol, e esse alguém está longe de por tal se enaltecer"
Louis Claude de Saint Martin
Citado por E. Cioran
in "Essai sur la pensée reactionnaire"
sábado, setembro 27, 2003
Voltando a Eça
Exiguidadade, dizia. Duas e diferentes: a do leitor, obrigado desde logo à inverosimilhança, à implausibilidade jacíntica ( a sua fortuna pessoal, quase impossível no Portugal de então, os "gadjets" do 202, os seus paradoxos), de onde, no entanto, tem de partir, exiguidade aumentada pela abundância de referências, de "locais" de interpretação que, também, abundantemente, se anulam - O Zé Fernandes do excurso ao Sacré Coeur, e o que sobe as serras no burro de Sancho Pança, o Zé Fernandes intérprete dos nossos pasmos, na busca de razoabilidade e o Zé Fernandes das paixões infames...
E exiguidade de Jacinto, que é de outra natureza, uma exiguidade da distância consciente entre o eu e o mundo", de Denkraum, enquanto "acto fundador da civilização humana" (Aby Warburg e a História como memória (António Guerreiro, Revista História das Ideias, Vol. 23, 2002 pgs. 389 e sgs) e de que Jacinto inteiramente prescinde de refundar em si, com o seu utilitarismo (Suma potência x Suma ciência = Suma felicidade)
Essa distância fundadora é, de facto, inexistente ou exígua num Jacinto que se confunde, se dissolve na cidade: "E depois (acrescentava), só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessária à vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris dois milhões de seres arquejando na obra da Civilização (para manter na natureza o domínio dos Jacintos!) sentia um sossego, um aconchego, só comparáveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no seu dromedário, e avista a longa fila da caravana murchando, cheia de lumes e de armas..." (itálicos do bloguista)
A solidariedade - e a fraternidade - jacintiana com seu semelhante citadino é forjada, porém, na solidariedade de produção de conhecimento, de significado: "Nem este meu super-civilizado amigo compreendia que longe de Armazens servidos por três mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de Fábricas fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de Bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima de fios de telegrafos, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos omnibus, tramways, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões de de uma humanidade fervilhando, a ofegar, através da Polícia, na busca dura do pão ou sobre a ilusão do gozo - o homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver".
Em oposição, as serras - e a natureza - não serão tanto a "natureza" fisicamente falando, quanto um locus, ou um objecto não epistemológico, não diferenciado , que não podemos interrogar - "Depois, em meio da Natureza, ele assistia à súbita e humilhante inutilização de todas as suas faculdades superiores" - e que, ao não nos questionar, nos priva de identidade, nos hostiliza: Jacinto "estava aí como perdido num mundo que lhe não fosse fraternal"
E onde está Zé Fernandes?
Exiguidadade, dizia. Duas e diferentes: a do leitor, obrigado desde logo à inverosimilhança, à implausibilidade jacíntica ( a sua fortuna pessoal, quase impossível no Portugal de então, os "gadjets" do 202, os seus paradoxos), de onde, no entanto, tem de partir, exiguidade aumentada pela abundância de referências, de "locais" de interpretação que, também, abundantemente, se anulam - O Zé Fernandes do excurso ao Sacré Coeur, e o que sobe as serras no burro de Sancho Pança, o Zé Fernandes intérprete dos nossos pasmos, na busca de razoabilidade e o Zé Fernandes das paixões infames...
E exiguidade de Jacinto, que é de outra natureza, uma exiguidade da distância consciente entre o eu e o mundo", de Denkraum, enquanto "acto fundador da civilização humana" (Aby Warburg e a História como memória (António Guerreiro, Revista História das Ideias, Vol. 23, 2002 pgs. 389 e sgs) e de que Jacinto inteiramente prescinde de refundar em si, com o seu utilitarismo (Suma potência x Suma ciência = Suma felicidade)
Essa distância fundadora é, de facto, inexistente ou exígua num Jacinto que se confunde, se dissolve na cidade: "E depois (acrescentava), só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessária à vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris dois milhões de seres arquejando na obra da Civilização (para manter na natureza o domínio dos Jacintos!) sentia um sossego, um aconchego, só comparáveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no seu dromedário, e avista a longa fila da caravana murchando, cheia de lumes e de armas..." (itálicos do bloguista)
A solidariedade - e a fraternidade - jacintiana com seu semelhante citadino é forjada, porém, na solidariedade de produção de conhecimento, de significado: "Nem este meu super-civilizado amigo compreendia que longe de Armazens servidos por três mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de Fábricas fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de Bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima de fios de telegrafos, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos omnibus, tramways, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões de de uma humanidade fervilhando, a ofegar, através da Polícia, na busca dura do pão ou sobre a ilusão do gozo - o homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver".
Em oposição, as serras - e a natureza - não serão tanto a "natureza" fisicamente falando, quanto um locus, ou um objecto não epistemológico, não diferenciado , que não podemos interrogar - "Depois, em meio da Natureza, ele assistia à súbita e humilhante inutilização de todas as suas faculdades superiores" - e que, ao não nos questionar, nos priva de identidade, nos hostiliza: Jacinto "estava aí como perdido num mundo que lhe não fosse fraternal"
E onde está Zé Fernandes?
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